Estudos/Meditações 

CULPA


VERDADEIRA E FALSA, E O QUE FAZER COM ELA
Dr. David W. Smith


"CULPADO!"
A palavra lhe deu calafrios e fez suas mãos tremerem.
O juiz continuou: "Culpado de todas as acusações – mentir à esposa, sonegar o imposto de renda e roubar do patrão".
Ele se pôs em pé de um salto e gritou: "Não é verdade! Posso explicar tudo..."
"Silêncio!" interrompeu o juiz. "O veredicto permanece. Você estará detido até que cumpra a sentença." Bateu seu martelo com força.
Bill pulou da cama como um raio. Suas mãos estavam úmidas. Seu travesseiro, ensopado de suor.
– Bill? o que há?, perguntou sua esposa, assustada.
– Nada. Apenas um sonho mau.
Assim começa o fascinante livro, Honestidade, Moralidade e Consciência, por Dr. Jerry White – livro que recomendo e que serve de livro-texto numa das minhas matérias no Seminário. Culpa, aquele horrível sentimento de mal-estar e de autocondenação que todos nós conhecemos, perseguia Bill até no sono.

Culpa. Gerou medo no coração do homem no jardim do Éden. E continua hoje a afligir muitos corações a ponto de um autor afirmar: "A culpa é a doença que causa mais aleijões no mundo de hoje!"
Mas será que a culpa é, de fato, uma "doença" que só traz dano e destruição? Biblicamente, é claro que a resposta é não! Embora seja verdade que ninguém pode viver com a culpa e que o homem luta desesperadamente por evitá-la, justificá-la ou encobri-la, Deus nunca tencionou que a culpa o levasse ao desespero, e sim, ao arrependimento.
O apóstolo Paulo escrevera uma forte repreensão numa carta aos Coríntios – carta que provocou um profundo senso de culpa e de tristeza em seus leitores. Mas os coríntios reagiram e corrigiram o erro. A nova carta de Paulo muito nos instrui sobre a função correta da culpa:
"Agora me alegro, não porque fostes contristados, mas porque fostes contristados para arrependimento; pois fostes contristados segundo Deus, para que de nossa parte nenhum dano sofrêsseis. Porque a tristeza segundo Deus produz arrependimento para a salvação que a ninguém traz pesar; mas a tristeza do mundo produz morte." (2 Co 7:9,10.)
Deus, portanto, tencionava que a culpa levasse o homem ao reconhecimento de seu pecado, ao arrependimento, e à confissão que restaura a comunhão com Ele.
Conseqüentemente, é importante que eu verifique qual a causa de minha culpa, para distinguir entre a culpa "segundo Deus", que me leva ao arrependimento, e a culpa que não é "segundo Deus" e que pode produzir conseqüências desastrosas.
Alguns especialistas distinguem entre "culpa real" e "culpa falsa". Mas, na realidade, culpa é culpa. A "culpa falsa" não é menos dolorosa que a "culpa real". Isso porque, quando falamos de "culpa", referimo-nos a um SENTIMENTO (ou emoção), produzido pela nossa consciência ao violarmos algum padrão. O sentimento é sempre real. Mas é o PADRÃO que pode ser "verdadeiro" ou "falso".

Para ilustrar, imagine uma secretária que tenha levado para casa, durante vários anos, material de escritório. Além disso, já fez muitas ligações interurbanas pessoais, pagas pela firma. Um dia, ela lembra das palavras "Não furtarás" (Dt 5:19), e sente-se profundamente culpada. E culpa "segundo Deus", porque sua consciência acusa a violação do padrão de DEUS, padrão "verdadeiro".

Imagine, por outro lado, um jovem criado em regime de legalismo. Ele termina a faculdade, casa-se, e continua morando perto dos pais. Os pais exigem que o jovem casal almoce cada domingo à tarde com eles. O só pensar em "violar" esse compromisso traz um profundo senso de culpa ao coração desse filho. O sentimento de culpa é muito real, mas o PADRÃO é falso.

Quando me sinto culpado, portanto, devo examinar a "causa" - devo avaliar o padrão que tenho violado. Se eu descobrir que o padrão violado é bíblico, devo confessar meu pecado ao Senhor (1 Jo 1:9), ciente de que Ele não só perdoará os pecados específicos confessados, mas tam­bém purificar-me-á "de toda injustiça," i.é., das ofensas das quais eu não estava ciente.

Pelo contrário, se eu descobrir que o padrão violado não é bíblico, devo avaliá-lo à luz das Escrituras e ajustá-lo ("Quero honrar meus pais e manter um bom relacionamento com eles através dos almoços de domingo. Porém, se não almoçarmos com eles, não estarei violando uma lei de Deus, e não devo sentir-me culpado por isso.")

As vezes, mesmo reconhecendo que o padrão é errado, o sentimento de culpa continua a perturbar-me. Preciso "banhar-me" na Palavra de Deus e memorizar versículos pertinentes ao caso. Aos poucos, minha consciência deixará de acusar-me, à medida que ela esteja absorvendo e assumindo o novo padrão.

Pessoas importantes do nosso passado (pais, parentes, professsores, etc.) influenciam grandemente na formação do padrão de nossa consciência. Filhos de pais críticos e exageradamente exigentes podem experimentar um sentimento constante de culpa flutuante. Mesmo certos de que "já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus " , e que "Ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados" confessados, eles lutam para livrar-se de um sentimento de culpa. Talvez seja necessário voltarem e examinar as experiências do passado que gravaram o padrão errado em suas consciências. Depois, uma "santa lavagem cerebral" por meio da leitura e memorização de passagens da Palavra de Deus que tratam do assunto ajudará a estabelecer na consciência um novo padrão. Paulo nos ordena: "e vos renoveis no espírito do vosso en­ tendimento" (Ef 4:23) e "transformai-vos pela renovação da vossa mente." (Rm 12:2.) E, por último, a prática constante e coerente do novo padrão durante várias semanas logo se transformará em convicção pessoal, parte do próprio estilo de vida."

Tenho a impressão, portanto, que nossa luta maior não é a de distinguir entre a culpa "real" e "falsa". Nosso esforço principal deve ser dirigido à "construção" de um padrão cada vez mais bíblico. Isso porque CULPA também é um termo jurídico, e não meramente um sentimento. A própria Bíblia normalmente usa a palavra "culpa" no sentido jurídico, assim descrevendo nossa condição objetiva ao violarmos um padrão. Todos, por exemplo, são objetivamente culpados perante Deus (Rm 3:10, 23; Is 53:6), MESMO QUE NÃO SE SINTAM ASSIM.

Com um padrão de consciência forjado pela Palavra de Deus, a culpa pode tomar-se uma grande amiga, alertando-nos quanto às violações da vontade do nosso Pai, trazendo-nos de volta a uma íntima comunhão com Ele através do arrependimento e confissão sinceros.


 

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